O fim de uma década sempre vem acompanhado das expectativas pelo decênio que está por vir. Alguns vêem os novos tempos com esperança, outros com medo. No fim dos anos 1970, o mundo estava em crise. Na música pop isto se refletia no esgotamento de estilos que há pouco tinham sido grandes novidades: a discoteca e o punk. Ambos os estilos deixaram de representar uma contracultura para serem consumidos em larga escala, freqüentarem programas de auditório e venderem muitos discos. Nessa época de transição dos anos 70 para os 80, a música pop perdeu seu rumo. O que tinha sido novidade nos anos 70 já estava ultrapassado, e os 80 ainda estavam completamente indefinidos. Ainda não haviam Madonna, Duran Duran, Thriller, Clube dos Cinco nem Sigue Sigue Sputinik. A década ainda não estava perdida.
No final dos anos 70, após alguns álbuns e poucos hits, Grace Jones abandona a figura diva gay disco que a caracterizava até então. Nos álbums Warm Leatherette (1980) e principalmente Nightclubbing(1981), Grace buscou uma sonoridade do futuro. Mas até então não se sabia que o futuro dos anos 80 seria aquele festival de cores e sintetizadores que acabaram dominando a década. O futuro de Grace era dub, minimalista e por vezes sombrio. Eram os anos 80 de Blade Runner, Koyaanisqatsi e Neuromancer.
Em “Nightclubbing” Grace Jones sai na noite e vai para os clubes. Mas em vez de ir para o Studio 54, Grace vai para as bibocas e clubes underground, passando por lugares soturnos e perigosos, sentindo a ameaça no ar ao atravessar a rua. No caminho encontra David Bowie, Iggy Pop, Roxy Music e Joy Division, gente que já havia apontado para um futuro diferente nos anos 70. Mas Grace não se ilude, tem plena consciência de que é um produto. E diz para seus ouvintes: “use me”.
O dub, um tipo de reggae cheio de efeitos eletrônicos, forneceu a sonoridade futurista ideal para a persona andróide e andrógina de Grace cantar/falar em cima. Numa mistura improvável de tango e dub, Grace canta “Libertango” de Astor Piazzolla em inglês e francês, gerando um de seus maiores hits. O disco foi gravado nas Bahamas, no lendário estúdio “Compass Point”, e produzido por Chris Blackwell, fundador da Island Records. Entre os músicos, os também lendários Sly Dunbar e Robbie Shakespeare na bateria e no baixo, além de Barry Reynolds na guitarra.
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