30.4.09

Gal Costa - Compactos


Antes do compact disc havia o disco compacto. O curto reinado do CD (que já terminou, convenhamos) fez desaparecer este simpático produto musical dos tempos do vinil, ao menos no Brasil. Aqui o CD sempre foi um produto muito caro, apesar do sabido baixo custo de fabricação. A qualidade dos CDs nacionais também sempre deixou a desejar: capas mal impressas, encartes mutilados e amassados e até caixinhas plásticas de segunda linha. Compare a versão nacional e a importada de um CD qualquer e verá a inferioridade do produto nacional. Tudo em nome de maiores lucros para as gravadoras.

Nas poucas tentativas de emplacar o cd single no mercado nacional, o produto saía por cerca de 5 reais para o consumidor, naquela época em que o cd normal custava uns 20 reais. Não deu certo porque era muito caro. Como resultado, perdeu-se definitivamente o formato compacto-single no Brasil.

Uma pena para todos, porque nos tempos do vinil as gravadoras ganharam muito vendendo esses disquinhos de duas músicas. O compacto da Blitz com “você não soube me amar” é o exemplo clássico: vendeu absurdo e transformou a banda em febre nacional.

Sem o compacto, os artistas brasileiros perderam um formato versátil e econômico, que era apropriado tanto para os hits (o lado A) quanto para raridades e experimentações (o lado B). Um formato descompromissado, ideal para se lançar nas entressafras, sem a pressão e o custo de se fazer um disco normal.

Os compactos de Gal Costa a seguir, de 1973 e 1974, trazem músicas raras, que não foram lançadas em LPs da cantora. O primeiro traz “barato modesto”, de Caetano Veloso, no lado B, que completa a “trilogia do barato” de Gal (junto com “barato total” e “vapor barato”, esta também lançada originalmente em compacto). Estes compactos tentaram emplacar Gal no Carnaval, o que só iria acontecer mais tarde (várias vezes no entanto). É Gal já dando sinais do que viria a ser, porém ainda sobre efeito de tantos baratos dos anos 70.

1973 - COMPACTO
1. Estamos Aí (Edil Pacheco / Paulinho Diniz)
2. Barato Modesto (Caetano Veloso)

1974 - COMPACTO
1. Sem Grilos (Caetano Veloso / Moacir Albuquerque)
2. Acorda Pra Cuspir (Haroldinho Sá)



24.4.09

Elba Ramalho - Capim do vale (1980)



Quando Marisa Monte estava começando sua carreira, sua voz era comparada a de Gal Costa. Certos timbres, em determinados momentos, realmente aproximavam estas duas cantoras, o que só ajudou Marisa Monte a se firmar enquanto grande cantora da MPB. Um amigo, no entanto, costuma brincar dizendo que sempre confunde a voz de Marisa com a de Paula Toller, do Kid Abelha.

Comparações, mesmo sendo boas, acabam tirando um pouco da impressão de frescor e originalidade que muitos artistas (ou gravadoras) tentam passar. Dizer que tal artista “é o novo Djavan” dá a impressão de que eles são parecidos, mas que Djavan ainda é melhor. E fazer o que? Muita gente tem voz parecida mesmo. E são tantos cantores por aí que ser afinado não quer dizer muita coisa.

Elba Ramalho não tem esse problema. Não é uma questão de timbre de voz único, que só ela tem. Elba canta de um modo especial, como se tivesse sua própria afinação, uma lógica de canto que não é a tradicional. Sim, é emoção, mais do que técnica, mas não é só isso. O jeito de cantar de Elba, meio gritando, meio gemendo, mas com total controle de voz, é peculiar. Por isso é difícil compará-la com outras vozes. Como Bjork e Roy orbison, ela tem seu canto próprio.

“Capim do vale” (1980) é o segundo disco de Elba. Se no primeiro disco, “Ave de prata” (1979), havia espaço para Chico Buarque e Walter Franco, aqui o repertório é todo nordestino, resultando numa sonoridade mais homogênea. Com músicas de Alceu Valença, Luiz Gonzaga, Elomar, Geraldo Azevedo, Sivuca e Vital Farias, “Capim do vale” é um disco vigoroso, que mostra a força da intérprete. Um repertório ideal para Elba soltar sua voz e definir seu estilo único de cantar.





22.4.09

Grace Jones - Nightclubbing (1981)




O fim de uma década sempre vem acompanhado das expectativas pelo decênio que está por vir. Alguns vêem os novos tempos com esperança, outros com medo. No fim dos anos 1970, o mundo estava em crise. Na música pop isto se refletia no esgotamento de estilos que há pouco tinham sido grandes novidades: a discoteca e o punk. Ambos os estilos deixaram de representar uma contracultura para serem consumidos em larga escala, freqüentarem programas de auditório e venderem muitos discos. Nessa época de transição dos anos 70 para os 80, a música pop perdeu seu rumo. O que tinha sido novidade nos anos 70 já estava ultrapassado, e os 80 ainda estavam completamente indefinidos. Ainda não haviam Madonna, Duran Duran, Thriller, Clube dos Cinco nem Sigue Sigue Sputinik. A década ainda não estava perdida.

No final dos anos 70, após alguns álbuns e poucos hits, Grace Jones abandona a figura diva gay disco que a caracterizava até então. Nos álbums Warm Leatherette (1980) e principalmente Nightclubbing(1981), Grace buscou uma sonoridade do futuro. Mas até então não se sabia que o futuro dos anos 80 seria aquele festival de cores e sintetizadores que acabaram dominando a década. O futuro de Grace era dub, minimalista e por vezes sombrio. Eram os anos 80 de Blade Runner, Koyaanisqatsi e Neuromancer.

Em “Nightclubbing” Grace Jones sai na noite e vai para os clubes. Mas em vez de ir para o Studio 54, Grace vai para as bibocas e clubes underground, passando por lugares soturnos e perigosos, sentindo a ameaça no ar ao atravessar a rua. No caminho encontra David Bowie, Iggy Pop, Roxy Music e Joy Division, gente que já havia apontado para um futuro diferente nos anos 70. Mas Grace não se ilude, tem plena consciência de que é um produto. E diz para seus ouvintes: “use me”.

O dub, um tipo de reggae cheio de efeitos eletrônicos, forneceu a sonoridade futurista ideal para a persona andróide e andrógina de Grace cantar/falar em cima. Numa mistura improvável de tango e dub, Grace canta “Libertango” de Astor Piazzolla em inglês e francês, gerando um de seus maiores hits. O disco foi gravado nas Bahamas, no lendário estúdio “Compass Point”, e produzido por Chris Blackwell, fundador da Island Records. Entre os músicos, os também lendários Sly Dunbar e Robbie Shakespeare na bateria e no baixo, além de Barry Reynolds na guitarra.




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